Jomons
O povo Jōmon (縄文人, Jōmon jin) é o nome genérico de vários povos que viveram no arquipélago japonês durante o período Jōmon (c. 14.000 a 300 aC). Hoje, a maioria dos historiadores japoneses concorda com a possibilidade de que os Jōmon não eram um único povo homogêneo, mas consistiam em vários grupos heterogêneos.[1][2]
O arquipélago japonês tornou-se acessível através da Península Coreana no início do Último Máximo Glacial, cerca de 28.000 anos atrás, permitindo a movimentação entre eles. E o alargamento do estreito da Coreia, de 16.000 a 17.000 anos atrás, devido ao aumento do nível do mar, pode ter levado ao subsequente isolamento da linhagem Jōmon do resto do continente.[3] O povo Jōmon manteve um pequeno tamanho populacional efetivo de cerca de 1.000 ao longo de vários milênios, com uma profunda divergência das populações continentais datadas de 20.000-15.000 anos atrás. O povo indígena Jōmon tinha seu próprio estilo de vida e cultura únicos no Japão por milhares de anos, antes da adoção do cultivo de arroz durante o período Yayoi subsequente.[4]
Etimologia
[editar | editar código]Jōmon (縄文, Jōmon), às vezes escrito como Jomon (en-US /JOH-mahn/, en-UK /JOH-mon/),[5] é uma palavra japonesa traduzida diretamente como "marcado por cordas" ou "padrão de cordas". O termo foi cunhado pelo zoólogo, arqueólogo e orientalista americano Edward S. Morse em seu livro Shell Mounds of Omori (1879), descrevendo sua escavação do Sambaqui de Ōmori perto de Tóquio e a subsequente descoberta de fragmentos de cerâmica marcada por cordas no local em 1877. Morse traduziu "padrão de corda de palha" do inglês para o japonês como Jōmon, que ele usaria para se referir às pessoas que viviam durante este período da História do Japão.[6][7][8] Outros nomes para a cerâmica Jōmon foram usados nas primeiras décadas após a descoberta, como "cerâmica da escola Ainu" e "cerâmica de sambaqui", antes de o termo Jōmon se tornar o padrão usado pela comunidade arqueológica.[8] De fato, não foi antes de 1937 que o historiador japonês Yamanouchi Sugao usou o termo derivado da cerâmica para se referir aos habitantes paleolíticos do Japão.[9]
Jōmon é uma palavra composta por dois kanji: 縄 e 文, sendo a pronúncia e o valor semântico de cada um derivados de sua respectiva leitura Go-on.
- 縄 (jō) – significando "corda" ou cordel, especificamente "uma corda pesada e flexível de fibras de cânhamo ou outras fibras firmemente entrelaçadas." Este kanji deriva etimologicamente do Japonês antigo, do Proto-japônico napa, relacionado ao verbo 綯う (nau, "trançar ou torcer para formar um barbante ou linha").[10][11][12]
- 文 (mon) – significando "padrão" ou design, como visto em palavras como moyō (模様) ou mon'yō (文样).[13]
A palavra pode, assim, ser usada como um substantivo comum que significa "padrão de cordas", ou como um substantivo próprio abreviado referindo-se especificamente ao Período Jōmon. Estes kanji aparecem em vários termos relacionados, criando um campo lexical centrado na cultura Jōmon, que inclui:
- 縄文時代 (Jōmon jidai, "Período Jōmon")
- 縄文式土器 (Jōmon-shiki doki, "louça Jōmon")
- 縄文人 (Jōmon-jin, "povo Jōmon")
- 縄文土器 (Jōmon doki, "Cerâmica Jōmon")[14]
Raízes do povo Jōmon
[editar | editar código]Raízes do povo Jōmon do ponto de vista da antropologia física
[editar | editar código]Assim como já se acreditou no passado que os Ainus poderiam ser caucasoides, existem estudos[15] que sugerem que os Jōmon também teriam semelhanças físicas com os caucasoides. No entanto, na área da antropologia física, muitos estudos apontam semelhanças com as populações do Paleolítico do Nordeste da Ásia e do arquipélago japonês, onde um número relativamente grande de ossos humanos fossilizados foi encontrado.
Ao observar a relação entre os ossos humanos fossilizados escavados até o momento e o povo Jōmon, considera-se que o mais próximo do povo Jōmon seja o Homem de Minatogawa (cerca de 18.000 anos atrás), escavado na ilha de Okinawa. Contudo, do ponto de vista dos traços físicos, não se pode dizer que os Jōmon são simplesmente a próxima fase evolutiva do Homem de Minatogawa; acredita-se que existam mais um ou dois elos perdidos entre eles[16]. Além disso, como o crânio do Homem de Minatogawa é mais próximo ao do Homem de Wajak e não se assemelha tanto ao do Homem de Liujiang ou ao do Homem da Caverna Superior (China), há a visão de que, pelo menos, os ancestrais dos Jōmon do Arco de Ryukyu não vieram da região do Pacífico[16].
Por outro lado, também existem estudos sugerindo que os Jōmon são derivados de populações do sul da Sibéria durante o Paleolítico.[17][18]
Segundo Seguchi (2014), os Jōmon pré-históricos derivaram de diversas populações do Paleolítico que utilizaram várias rotas migratórias para o Japão.[18]
Nesse aspecto, a identidade biológica dos Jōmon é heterogênea, o que pode indicar a presença de povos diversos que podem ter pertencido à cultura comum conhecida como Jōmon.
— Seguchi 2014
Em um estudo de craniometria de 2017 conduzido por Osamu Kondo, descobriu-se que os Jōmon eram bastante heterogêneos. Os "Jōmon do Sul" e os "Jōmon do Norte" apresentavam grandes diferenças. Os "Jōmon do Sul" de Kyushu, Shikoku e Honshu eram quase idênticos aos asiáticos orientais modernos ("mongoloides"), enquanto os "Jōmon do Norte" possuíam fenótipos diferentes. Embora a maioria dos Jōmon seja descendente de antigos asiáticos orientais, os Jōmon de Hokkaido parecem ter uma ancestralidade genética distinta. Existem evidências de fluxo gênico entre os Jōmon de Hokkaido e os de Honshu
Raízes do povo Jōmon do ponto de vista da antropologia molecular
[editar | editar código]As características do DNA do povo Jōmon mostram uma diferença clara em relação à maioria dos asiáticos orientais modernos (como mongóis, chineses, vietnamitas, etc.), cujas características de DNA se alinham demonstrando uma relação próxima, enquanto os Jōmon se posicionam de forma distante.[19][20] A grande maioria desses asiáticos orientais modernos são descendentes do ramo entre os Antigos asiáticos do leste setentrional e os Antigos asiáticos do leste meridional (e a mistura de ambos), que originalmente possuíam alto grau de parentesco. Isso sugere que os Jōmon se ramificaram muito antes do ancestral comum desses grupos.
Vale notar que os japoneses modernos ocupam uma posição intermediária entre os dois, sugerindo que herdaram o DNA do povo Jōmon. Em estudos recentes de antropologia molecular, encontrou-se semelhança entre os ossos de minorias étnicas escavados nas áreas costeiras do Leste Asiático e os do povo Jōmon.[21]
Segundo análises genômicas recentes, os ancestrais da minoria étnica do povo mani, que vive nas densas florestas do sul da Tailândia, compartilham grande parte de seu genoma com os Jōmon.[22][20] Ao redor da Tailândia e de Laos, existiu no passado uma cultura de caça e coleta associada ao Hoabinhiano, cujo DNA foi herdado pelo povo mani atual e por grupos afins.[19][20] Atualmente, eles se tornaram minorias isoladas devido ao posterior influxo de povos agricultores vindos do norte.
Existe a teoria de que seus ancestrais se separaram do grupo de humanos modernos que chegou mais tardiamente ao Sudeste Asiático e a Yunnan (cerca de 50.000 anos atrás),[Nota 1] e que uma parte migrou para o norte ao longo da costa do Leste Asiático, alcançando o arquipélago japonês e o Primorye.
Raízes paternas
[editar | editar código]Os haplogrupos do cromossomo Y, que permitem traçar a linhagem paterna, são adequados para rastreamentos de longo prazo, de dezenas de milhares de anos, e as pesquisas avançaram rapidamente a partir do final da década de 1990. Os japoneses apresentam frequências máximas na linhagem Jōmon do Haplogrupo D1a2a do cromossomo Y e na linhagem Yayoi do Haplogrupo O1b2, resultados que são consistentes com o "Modelo de Estrutura Dual" proposto por Kazuro Hanihara e outros. O Haplogrupo D1a2a do cromossomo Y é encontrado nas populações étnicas modernas do Japão (Povo Yamato, Povo Ryukyuano e Povo Ainu) e é um tipo visto frequentemente em três regiões: nas ilhas principais do Japão, nas Ilhas Amami / Ilhas Ryukyu e nas Ilhas Curilas.
Além disso, também há uma teoria que propõe um "Modelo de Estrutura Tripla" baseada em análises genômicas em vez do cromossomo Y.[23] Mais recentemente, este modelo também vem passando por revisões. (Veja: Japoneses#Jōmon, Yayoi e Kofun)
Fora do Japão, essa linhagem pode ser encontrada em baixa frequência na Coreia do Sul, Micronésia e na Ilha de Timor.
Dado que este Haplogrupo D1a2a é encontrado em 75% dos ainus, considera-se que a linhagem D pertenceu ao antigo povo Jōmon (do Paleolítico da Sibéria). Entretanto, o haplogrupo dos Jōmon não era exclusivamente D1a2a, pois acredita-se que o Haplogrupo C1a1 também seja derivado dos Jōmon.[24][25]


A linhagem do Haplogrupo D também é conhecida como tipo YAP (haplótipo YAP), tendo se separado das linhagens do Haplogrupo O e do Haplogrupo C2, dominantes na Ásia moderna, há mais de 70.000 anos. Ela é parente muito próxima do Haplogrupo E (que também é do tipo YAP), do qual divergiu há 65.000 anos. Atualmente, além do arquipélago japonês, os únicos locais onde a linhagem D possui alta frequência são o Tibete[26][27] e nas Ilhas Andamão.[28] O haplogrupo D está ligado aos "Montanheses do Leste Asiático" (antigos tibetanos), que eram próximos aos antigos asiáticos orientais e siberianos; ele teria aumentado na fase tardia do período Jōmon, substituindo amplamente as linhagens anteriores desse período, como C1a1, K e P.[29][30]
Por outro lado, a linhagem O, dominante entre o antigo povo Yayoi e no Leste Asiático moderno, é próxima à linhagem N dos Povos urálicos, e pertence a um grupo completamente diferente do tipo YAP (linhagens D e E) dos Jōmon e dos Ainus.
Com base nisso, a teoria de que o povo Yayoi se originou do povo Jōmon através de uma evolução natural é completamente refutada.
Acredita-se que os portadores da linhagem D chegaram ao arquipélago japonês dezenas de milhares de anos atrás, durante o Último período glacial. A evidência disso está no desenvolvimento de muitos SNPs encontrados apenas na linhagem D dos japoneses. Dado que a ocorrência de SNPs é um evento probabilístico gerado por mutações genéticas, o número de ocorrências permite mensurar a passagem do tempo. Estima-se que a linhagem D1a2a, exclusiva do Japão, surgiu há cerca de 35 a 37 mil anos,[31] o que coincide com a época apontada pela arqueologia para a primeira chegada de grupos de homo sapiens ao arquipélago.
Por muito tempo, o haplogrupo do cromossomo Y não havia sido analisado a partir de ossos humanos Jōmon, mas o esqueleto masculino Funadomari No. 5 (do período Jōmon inicial ao médio posterior, cerca de 3.800 a 3.500 anos atrás), escavado no Sítio de Funadomari na Ilha Rebun, Hokkaido, revelou pertencer ao haplogrupo do cromossomo Y D1a2a2a (D-CTS220).[32] Com isso, a hipótese tradicional de que "o haplogrupo D1a2a é da linhagem Jōmon" ficou mais robusta, embora tenha sido testado em um único indivíduo pertencente ao longo período intermediário do Jōmon. Esperam-se verificações mais amplas e abrangentes no futuro. Ademais, ao analisar e comparar o genoma nuclear de ossos humanos do Paleolítico escavados nas Cavernas Shiraho Saonetabaru, na ilha de Ishigaki (Okinawa), descobriu-se que o genoma nuclear dos Jōmon possuía 60% em comum com o povo de Shiraho, indicando que os restantes 40% eram derivados de linhagens do norte.
Em particular, a época de dispersão do haplogrupo C1a1 coincide com o início da cultura Jōmon e, dependendo de pesquisas futuras, poderá se mostrar um dos principais DNAs dos antigos Jōmon. O haplogrupo C1a1 é endêmico dos japoneses e é encontrado no Japão moderno a uma frequência de aproximadamente 5%.
Raízes maternas
[editar | editar código]Ao contrário dos haplogrupos do cromossomo Y, que traçam linhagens paternas, os haplogrupos de DNA mitocondrial podem rastrear linhagens maternas. No entanto, como o DNA mitocondrial ocasionalmente mistura DNA masculino e a determinação de linhagens e períodos em camundongos diferiu completamente dos fatos observados, os dados devem ser avaliados em conjunto com outras evidências, como o cromossomo Y.
A análise do DNA mitocondrial (materno) elucidou uma das facetas das raízes dos Jōmon. Sabe-se que eles possuíam o Haplogrupo M7a, exclusivo do Japão, bem como os haplogrupos B e F, que compartilham genes com linhagens do sul. Segundo as pesquisas de Satoshi Horai, "as minorias do Sudeste Asiático, povos do arco de Ryukyu e os ainus no arquipélago japonês possuem fatores comuns". Dado que a antropologia física sugere que esses povos são os mais próximos dos Jōmon, é possível afirmar que as raízes do povo Jōmon venham de povos do Paleolítico do Sudeste Asiático[33].
Corroborando essas hipóteses, a pesquisa de Ken-ichi Shinoda e outros pesquisadores do Departamento de Antropologia do Museu Nacional de Natureza e Ciência, identificou o Haplogrupo M7a nos Jōmon de 25.000 anos atrás no Sítio de Uenohara, na cidade de Kirishima (Kagoshima). A hipótese é de que os Jōmon se originaram em Sundaland (ao largo das Filipinas, no Sudeste Asiático, região hoje submersa), migraram para o norte em direção ao Sul de Kyushu, e a partir da chamada "Aldeia Mais Antiga" do Sítio de Uenohara, na parte noroeste da Península de Ōsumi, a linhagem M7a dos Jōmon se espalhou por todo o arquipélago. Sabe-se que essa linhagem M7a já havia chegado a Hokkaido durante o Período Jōmon.
Além disso, em análises conduzidas pelo Museu Nacional de Ciência e Natureza sobre ossos humanos do Paleolítico escavados até 2010 nas Cavernas Shiraho Saonetabaru em Ishigaki (Okinawa), revelou-se que dois dos quatro indivíduos mais antigos do país (datados de cerca de 20 a 10 mil anos atrás) possuíam o haplogrupo M7a.[34]
No entanto, segundo Yuji Mizoguchi, entre os ancestrais de todos os asiáticos orientais que se disseminaram pelo Sudeste Asiático via Índia há cerca de 50 a 60 mil anos,[35] múltiplos grupos chegaram ao arquipélago japonês. Eles podem ter chegado passando por Taiwan ou pelas Ilhas Ryukyu enquanto viajavam para o norte a partir do Sudeste Asiático. Alguns grupos podem ter se adaptado ao frio nas proximidades do Lago Baikal há cerca de 15.000 anos e então migrado para o sul a partir da Península Coreana e da China para o Japão. Outros podem ter se deslocado pela costa norte sem passar pelo Baikal, movendo-se para o sul a partir da região da Buriácia. Considerar a existência dessas múltiplas rotas explica de forma consistente o gradiente genético do arquipélago japonês.[36] O ponto principal dessa teoria é que a fundação do grupo asiático oriental ocorreu há 60.000 anos, e o grupo que se adaptou ao frio no Baikal não precisou ter passado pela Ásia Central vindo da África, o que não entra em conflito com as teorias de Horai e Shinoda.
Ademais, os Jōmon de Hokkaido possuem como linhagem majoritária o Haplogrupo N9b, tendo poucos representantes da linhagem M7a, e os Jōmon da região de Tohoku mostram uma tendência semelhante. Isso sugere que as raízes do povo Jōmon não vieram de um único ponto, mas tiveram origens múltiplas.
Outros genes
[editar | editar código]Existem várias teorias sobre as origens do povo Jōmon. Algumas sugerem o Sudeste Asiático, outras consideram o Nordeste da Ásia como possível origem. Outras ainda apontam o próprio Leste Asiático como berço. Pesquisas genéticas recentes afirmam que os Jōmon foram formados por populações de várias partes do continente da Eurásia.[18][37][6] Um artigo de revisão de 2014 focado em estudos genéticos e morfológicos também sugere que o povo Jōmon tem múltiplas origens.[18]
Em comparação com grupos de várias partes do mundo, os Jōmon estão relativamente mais próximos das populações do Leste Asiático do que dos africanos, europeus, sahulianos (Austrália-Melanésia) e povos nativos das Américas. O uso dos dados de Polimorfismo de nucleotídeo único (SNP) em todo o genoma fornecidos pelo Projeto de Diversidade do Genoma Humano (HGDP) demonstrou que as populações de Jōmon escavadas no Sambaqui de Sanganji estavam distantes de todos os eurasianos do leste contemporâneos, destacando sua especificidade. A singularidade da população de Sanganji dentro das populações do leste da Eurásia era comparável à diferença em relação aos europeus ou africanos. Em uma análise estatística comparando japoneses de etnia ainu, japoneses do arquipélago principal, populações das Ilhas Ryukyu e habitantes da etnia Han de Pequim (CHB28) com os Jōmon de Sanganji, o primeiro componente principal separou os ainus e os Jōmon de Sanganji das outras populações. Os mais próximos aos Jōmon de Sanganji foram os ainus, seguidos pelos povos de Ryukyu e pelos japoneses do arquipélago principal.[38]
Hoje, a maioria dos cientistas acredita que os Jōmon são descendentes de várias populações do continente eurasiano. A linhagem do grupo dos Jōmon cujas amostras foram obtidas possui distanciamento genético de outras populações humanas, incluindo as do Leste Asiático. Entretanto, existem algumas características comuns com populações costeiras do Leste Asiático, incluindo os japoneses da ilha principal, os Ulchis, os coreanos e os indígenas de Taiwan.[39] Os Jōmon divergiram das populações asiáticas continentais (representadas pelos chineses da etnia Han) em um período relativamente antigo, estimado entre 38.000 e 18.000 anos atrás. Verificou-se que os Jōmon, geneticamente, são mais próximos das áreas costeiras do Leste Asiático — como a tribo Ulchi no Primorye russo, a Península Coreana, Taiwan e Filipinas — do que propriamente da etnia Han no continente chinês. Assim, é muito provável que algumas pessoas com esses perfis tenham chegado ao Japão enquanto essas populações se espalhavam ao longo da costa asiática. Contudo, no estado atual das pesquisas, não se pode negar a possibilidade de que os próprios Jōmon do arquipélago japonês tenham sido os que se disseminaram pelas áreas costeiras do continente.[32]

Uma análise de genomas completos conduzida em 2020 forneceu mais informações sobre as origens dos Jōmon. Descobriu-se que os Jōmon descendiam de variadas populações humanas antigas que migraram para o Japão por rotas diversas. Eles são compostos, em grande parte, de populações antigas do norte da Eurásia das quais ainda não havia amostras disponíveis, bem como de diversos grupos relacionados ao Leste Asiático. Os resultados genéticos mostram que já ocorria miscigenação entre diferentes grupos populacionais no Japão durante o Paleolítico, havendo um influxo contínuo de genes a partir da costa leste asiática. Esse processo resultou em uma população diversificada que se homogeneizou antes da chegada do povo Yayoi. Também detectou-se influxo genético a partir do Planalto do Tibete, fato associado ao Haplogrupo D1a2a do cromossomo Y. Essa linhagem só se tornou o haplogrupo predominante no Japão mais para o final do período Jōmon. Sugere-se que as linhagens K e F estavam presentes no início do período Jōmon, sendo posteriormente substituídas pelas linhagens C e D. Na análise de um espécime Jōmon escavado no Sambaqui de Ikawazu e de espécimes antigos do planalto tibetano, foi descoberto apenas um ancestral em comum parcial entre os dois. Isso indica a ocorrência de um gargalo genético positivo quando o Haplogrupo D se espalhou, um haplogrupo relacionado às populações do antigo planalto tibetano e a povos de matriz linguística ligada às Línguas tibeto-birmanesas. Evidências genéticas sugerem que uma população ancestral do Leste Asiático na região próxima aos Himalaias introduziu linhagens nas populações japonesas do período Jōmon, enquanto a contribuição genética dos antigos povos do sudeste asiático foi pequena. Os autores concluíram que isso aponta para uma migração interiorana da população pelo sul ou centro da China em direção ao Japão durante o Paleolítico.[41][42]
O fluxo de genes a partir da antiga Sibéria também foi detectado nas populações Jōmon do norte em Hokkaido, propagando-se depois de Hokkaido para o norte de Honshu (região de Tohoku).[41][42] Em 2021, confirmou-se que a população antiga de Hokkaido foi formada pelo povo Jōmon e pelo "Homem do Paleolítico Superior Terminal" (TUP), populações locais originárias do norte da Eurásia durante o Paleolítico. Os Jōmon, que migraram do Leste Asiático por volta de 15.000 a.C., se mesclaram com os antigos eurasianos do norte, que haviam chegado no período do Paleolítico Superior Terminal anterior, formando assim o povo Jōmon de Hokkaido.[43] Em 2020, Gakuhari e colaboradores também apontaram a possibilidade de fluxo genético para o norte do Japão proveniente do Antigo Norte-Eurasiano (usando o genoma amostrado da ruína MA-1 em Mal'ta), ou grupos similares, fluxo este que pode estar claramente associado à introdução da cultura de lâminas microlíticas vinda da Sibéria.[40] Uma análise detalhada de genoma completo realizada por Cooke et al. em 2021 reavaliou as relações filogenéticas entre todas as amostras Jōmon disponíveis no momento e outras populações, concluindo que a linhagem Jōmon separou-se dos asiáticos orientais contemporâneos entre 15.000 e 20.000 a.C. e permaneceu amplamente isolada de populações externas desde então. Os autores analisaram se os Jōmon teriam tido contato posterior com habitantes continentais do Paleolítico Superior. Segundo a análise, o povo Jōmon recebeu miscigenação de uma população intimamente ligada às amostras do Sítio Yana RHS (Yana Rhinoceros Horn Site), na porção setentrional da Sibéria (do Paleolítico Superior profundo europeu), representativos do grupo conhecido como Antigos Norte-Eurasianos, os quais se dispersaram pelo norte da Eurásia antes do pico máximo da última era glacial. A herança genética do povo Jōmon entre a população japonesa atual é estimada, em média, em torno de 9,31%.[23] Estudos de DNA nuclear sugerem que a proporção de DNA Jōmon remanescente nos japoneses modernos é de 10 a 20% no arquipélago central de Honshu, cerca de 30% em Okinawa e por volta de 70% entre os ainus.
Um estudo publicado em 2020 pela Cambridge University Press sugere que o povo Jōmon não era um grupo homogêneo, e que houve migrações de povos do Nordeste Asiático por volta de 6.000 a.C., anteriores à imigração Yayoi. Essa população trouxe a cultura inicial do Período Jōmon Incipiente, representada pelas antigas tradições ceramistas de locais como o Sítio Ōdai Yamamoto I. Os pesquisadores também debatem a possibilidade de que povos austronésios estivessem presentes no extremo sul do Japão (especialmente nas Ilhas Sakishima) antes da chegada dos grupos Yayoi.[44]
Em uma revisão de 2022 conduzida por Melinda A. Yang sobre artigos relacionados a populações asiáticas, descobriu-se que os Jōmon estão intimamente relacionados a outras populações da linhagem do "Leste Asiático e Sudeste Asiático" (ESEA). Essa linhagem ESEA integra a ancestralidade das atuais populações do leste e sudeste asiático, dos povos indígenas da Sibéria e dos nativos americanos, além de incluir tanto a linhagem ancestral do Hoabinhiano do Paleolítico quanto o genoma do Homem de Tianyuan. No entanto, eles divergem das populações da Austrália e da Europa. Semelhante à antiga amostra do sul da China (Longlin), os Jōmon encontram-se relativamente próximos às amostras das costas norte e sul do leste asiático datadas de 9.000 a 4.000 anos atrás, quando comparados com a linhagem do antigo Hoabinhiano e com as amostras de Tianyuan, mas assumem um traçado atípico entre essas populações.[45]
A análise dos genes HLA classe I e classe II, e das frequências dos genes HLA-A, -B e -DRB1, mostrou similaridades entre os ainus e as populações nativas das Américas, especialmente grupos da costa noroeste do Pacífico, como os Tlingit. O estudo sugere que a principal ancestralidade tanto dos ainus quanto de agrupamentos nativos americanos pode ser rastreada até populações do Paleolítico do sul da Sibéria.[46]
Os dados genômicos populacionais de várias amostras do período Jōmon indicam que eles divergiram de outras populações do Leste Asiático por volta de 15.000 a.C. No entanto, há uma grande diferença em relação aos típicos mongoloides atuais. Além disso, os dados genômicos populacionais obtidos de diversas amostras do período Jōmon mostram que essa ramificação em relação a outros povos do Leste Asiático ocorreu entre 30.000 e 20.000 anos atrás. Após migrarem para o arquipélago japonês, o que ocorreu num período estimado entre 15.000 e 20.000 a.C., eles mantiveram-se quase que totalmente isolados de fluxos de genes vindos de fora.[47][48]
Além disso, genes originários de populações de locais do norte da Sibéria, associadas aos Europeus ou aos Antigos Norte-Eurasianos — como os detectados no esqueleto humano (Yana_UP) escavado no Sítio Yana RHS —, também foram captados nas amostras Jōmon analisadas. Esse traçado genético foi verificado com frequências ainda mais altas nas amostras provenientes do norte, entre os Jōmon de Hokkaido.[23] Contudo, apesar de valores similares terem sido detectados entre os Jōmon e o povo de Yana, houve apenas uma diferença estatística muito pequena. Portanto, são necessárias pesquisas de validação posteriores usando amostras antigas de melhor qualidade. Pesquisas futuras, em especial análises envolvendo amostras adicionais de paleosiberianos e asiáticos da Ásia Central antiga, tendem a ajudar significativamente a elucidar os motivos da potencial ligação genética entre o povo de Yana e os antigos Jōmon.[49]
Raízes do povo Jōmon do ponto de vista da arqueologia
[editar | editar código]Se considerarmos que as populações que habitaram o arquipélago japonês durante o Paleolítico Superior são os ancestrais diretos dos Jōmon, o ponto de interrogação passa a ser de onde vieram esses habitantes do Paleolítico Superior. Focando no formato das ferramentas de pedra, havia dois tipos de artefatos para fins semelhantes que coexistiam no Japão durante o Paleolítico Superior: as ferramentas de pedra em formato de faca e os micrólitos (lâminas microlíticas).
As ferramentas de pedra em forma de faca não possuem exemplos de escavação no continente e acredita-se que tenham se desenvolvido independentemente no arquipélago japonês, tendo sido descobertas em locais como as escavações do Sítio Uenohara, na prefeitura de Kagoshima.
Por outro lado, os micrólitos têm origem nos arredores do Lago Baikal e a tecnologia se propagou ao arquipélago japonês há cerca de 20.000 anos, chegando a Hokkaido através do Estreito de Sōya. A tecnologia microlítica alcançou as regiões de Tohoku e Hokuriku há aproximadamente 15.000 anos. Isso significa que, durante esse período, grupos minoritários portadores de conhecimento da técnica microlítica (Haplogrupo C2 (C-M217)) migraram do Nordeste da Ásia também pela via norte em direção ao Japão. Adicionalmente, também há a tecnologia microlítica que se espalhou para Kyushu — passando pelo norte da China e pela Península Coreana — e em seguida para o sudoeste do Japão. Baseando-se nas escavações mais antigas, acredita-se que ela tenha se disseminado de 16.000 a 15.000 anos atrás, embora exista uma teoria apontando para um período ainda mais recuado.[50]
Religião
[editar | editar código]Sugere-se que a religião do povo Jōmon era semelhante ao Xintoísmo primordial, especificamente ao Ko-Shintō. Baseava-se amplamente no animismo e, possivelmente, no xamanismo. Outras religiões semelhantes são as religiões ryukyuanas e a religião ainu.[51] Acredita-se que certos implementos de pedra estranhos, em vários formatos, tenham sido usados como talismãs.[52]
Rituais e festivais
[editar | editar código]Pensa-se que acessórios e joias eram usados mais durante ocasiões especiais, como festivais, enterros e rituais, do que na vida cotidiana.[52]
Sítios rituais centrais, localizados fora dos assentamentos e pertencentes a múltiplas aldeias, começaram a aparecer durante o período Jōmon Final;[53] no entanto, assentamentos centrais que também funcionavam como centros rituais já haviam surgido durante o período Jōmon Médio.
Montículos (mounds) foram construídos usando resíduos da escavação do solo e atividades da vida diária, mas não eram meros depósitos de lixo; em vez disso, possuíam um significado especial como locais de rituais.
Acredita-se que estatuetas de pedra e argila (Dogū) tenham sido usadas em festivais. Muitas representavam mulheres com seios e partes ou orifícios que possivelmente representavam genitais, sendo interpretadas como uma forma de oração pela fertilidade. Em algumas delas, utilizou-se asfalto na tentativa de repará-las.
As cerâmicas em miniatura são objetos de cerâmica em tamanhos extremamente reduzidos, modelados a partir de vasos de tamanho utilitário, como potes profundos para cozinhar e armazenar, ou tigelas rasas para servir comida. Devido às suas escavações em montículos cerimoniais, acredita-se que fossem usadas em cerimônias, e não como brinquedos.
Outros objetos encontrados em montículos cerimoniais incluem cerâmicas triangulares (teorizadas como versões simplificadas de estatuetas de argila), objetos de argila em forma de bastão (pensados como uma versão em miniatura de bastões de pedra), pedras em forma de carimbo (que se acredita terem sido modeladas após genitais femininos), objetos de argila em formato de noz (criados pressionando argila contra o interior de cascas de nozes) e cerâmicas com figuras humanas (teorizadas como xamãs com ornamentos de cabeça e ferramentas).
Artefatos em forma de espada feitos de osso de baleia foram escavados e acredita-se que tenham sido usados em rituais relacionados ao fogo, já que a maioria apresenta marcas de queima.[52] Os Jōmon também confeccionavam bastões ou varas de pedra e espadas,[54] que provavelmente serviam a propósitos rituais, dado que muitos foram expostos ao fogo. Outros artefatos, como grandes contas de jade, também apresentam sinais de exposição ao fogo.
Em Sannai-Maruyama, uma grande estrutura composta por seis grandes pilares de castanheiras, com entre 1 e 2 metros de diâmetro, foi repetidamente construída ao longo das eras. Acredita-se que desempenhasse múltiplos papéis, como local ritual, totem, observatório, farol e torre de vigia.[52]
Sepultamentos
[editar | editar código]As sepulturas variavam de acordo com o indivíduo, com os túmulos de adultos sendo diferentes dos de crianças e dos de algumas pessoas importantes.
- Os adultos eram enterrados em covas rasas (pit graves), alguns com seixos atuando como marcadores ou montículos de terra sobre eles.
- Pessoas importantes eram enterradas em covas cercadas por círculos de pedra.
- As crianças eram enterradas em cerâmicas de uso cotidiano reaproveitadas e colocadas juntas, afastadas das outras sepulturas; algumas cerâmicas sofriam modificações, como a quebra da borda ou a perfuração de furos no fundo ou na lateral. É possível que apenas bebês fossem enterrados dessa forma. Algumas dessas urnas continham seixos circulares do tamanho de um punho ou ferramentas de lascamento.
A maioria das sepulturas não continha bens funerários. Naquelas que possuíam, acredita-se que homens e mulheres fossem enterrados com objetos diferentes: ferramentas de caça e pontas de flecha de pedra para homens, e utensílios de cozinha, como moinhos manuais (saddle querns), para mulheres.
Em Sannai-Maruyama, covas foram escavadas em ambos os lados das estradas, com os pés voltados para a via em ângulos leves. No mesmo local, estruturas apoiadas por pilares podem ter servido como locais de repouso temporário para os mortos.[52]
A mumificação de mortos por dessecação com fumaça (smoke-dried mummification) também era praticada pelos povos Jōmon, uma prática seguida por vários povos, como os Papuas, Aborígenes australianos, povos do Sudeste Asiático, do Norte da China, Coreanos e habitantes indígenas da bacia do Rio Amur.[55]
Notas
[editar | editar código]Referências
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