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Acetilcolinesterase

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A acetilcolinesterase (AChE) é uma enzima crucial pertencente à família das hidrolases de ésteres carboxílicos, cuja principal função biológica consiste na rápida terminação da transmissão sináptica através da hidrólise do neurotransmissor acetilcolina em colina e acetato. Localizada predominantemente nas fendas sinápticas do sistema nervoso central e periférico, bem como nas junções neuromusculares, esta enzima apresenta uma das eficiências catalíticas mais elevadas conhecidas na bioquímica, operando a uma velocidade próxima do limite de difusão molecular. Sem a atividade catalítica contínua da acetilcolinesterase, a acetilcolina acumular-se-ia de forma descontrolada na fenda sináptica, resultando na estimulação contínua e repetitiva dos recetores nicotínicos e muscarínicos, o que provocaria uma dessensibilização dos recetores, bloqueio neuromuscular permanente, paralisia flácida e, em última análise, a falência respiratória fatal do organismo.[1][2][3][4][5][6]

A arquitetura molecular da acetilcolinesterase revela uma estrutura tridimensional altamente especializada, caracterizada por um sulco profundo conhecido como a «garganta do local ativo», que mede aproximadamente vinte angstroms de profundidade e penetra até ao núcleo da proteína. No fundo desta garganta encontra-se a tríade catalítica clássica constituída pelos aminoácidos serina, histidina e glutamato, auxiliada por um local de ligação colínica que estabiliza a carga positiva do grupo amónio quaternário da acetilcolina através de interações catião-pi com resíduos aromáticos como o triptofano. Adicionalmente, a enzima possui um local aniónico periférico situado na entrada da garganta, que desempenha um papel fundamental na captação inicial do substrato e na mediação de interações com vários inibidores, além de estar implicado em funções não clássicas da enzima, tais como a modulação da adesão celular, o desenvolvimento neuronal e a aceleração da agregação de peptídeos beta-amiloides na patogénese da doença de Alzheimer.

Do ponto de vista clínico e farmacológico, a acetilcolinesterase constitui um alvo terapêutico e toxicológico de extrema importância na medicina e na segurança global. Os inibidores da acetilcolinesterase dividem-se em reversíveis, como o donepezilo, a rivastigmina e a galantamina, que são amplamente utilizados no tratamento sintomático da demência de Alzheimer para aumentar a disponibilidade de acetilcolina no córtex cerebral, e em inibidores irreversíveis, categoria que inclui os compostos organofosforados utilizados como pesticidas agrícolas e como agentes de guerra química neurotóxicos, tais como o sarin, o soman e o VX. Estes agentes irreversíveis ligam-se covalentemente ao resíduo de serina do local ativo, impedindo permanentemente a hidrólise do neurotransmissor e desencadeando uma crise colinérgica aguda severa, cujo tratamento médico de emergência exige a administração imediata de antagonistas dos recetores muscarínicos, como a atropina, combinados com reativadores da enzima, como as oximas, que quebram a ligação fosfato-serina antes que ocorra o processo irreversível de envelhecimento enzimático.

Referências

  1. Hung, Li‐Wei; Sanbonmatsu, Karissa Y.; Williams, Robert F.; Chen, Julian C.‐H. (outubro de 2025). «Acetylcholinesterase: Structure, dynamics, and interactions with organophosphorus compounds». Protein Science (em inglês). 34 (10). ISSN 0961-8368. PMC 12447245Acessível livremente. PMID 40970461 Verifique |pmid= (ajuda). doi:10.1002/pro.70297
  2. Wiesner, Jiří; Kříž, Zdeněk; Kuča, Kamil; Jun, Daniel; Koča, Jaroslav (janeiro de 2007). «Acetylcholinesterases – the structural similarities and differences». Journal of Enzyme Inhibition and Medicinal Chemistry (em inglês). 22 (4): 417–424. ISSN 1475-6366. doi:10.1080/14756360701421294
  3. Grabowska, Weronika; Bijak, Michal; Szelenberger, Rafał; Gorniak, Leslaw; Podogrocki, Marcin; Harmata, Piotr; Cichon, Natalia (7 de setembro de 2025). «Acetylcholinesterase as a Multifunctional Target in Amyloid-Driven Neurodegeneration: From Dual-Site Inhibitors to Anti-Agregation Strategies». International Journal of Molecular Sciences (em inglês). 26 (17). 8726 páginas. ISSN 1422-0067. doi:10.3390/ijms26178726
  4. Moreta, Marta Pérez-Gómez; Burgos-Alonso, Natalia; Torrecilla, María; Marco-Contelles, José; Bruzos-Cidón, Cristina (15 de novembro de 2021). «Efficacy of Acetylcholinesterase Inhibitors on Cognitive Function in Alzheimer's Disease. Review of Reviews». Biomedicines (em inglês). 9 (11). 1689 páginas. ISSN 2227-9059. PMC 8615650Acessível livremente. PMID 34829917. doi:10.3390/biomedicines9111689
  5. Colovic, Mirjana B.; Krstic, Danijela Z.; Lazarevic-Pasti, Tamara D.; Bondzic, Aleksandra M.; Vasic, Vesna M. (1 de abril de 2013). «Acetylcholinesterase Inhibitors: Pharmacology and Toxicology». Current Neuropharmacology (em inglês). 11 (3): 315–335. doi:10.2174/1570159X11311030006
  6. Freire, Denise Maria Guimarães (26 de fevereiro de 2021). Anais da Jornada Giulio Massarani de Iniciação Científica, Tecnológica, Artística e Cultural. Leonardo Holanda Travassos Corrêa, Márcia Rosana Cerioli. Rio de Janeiro, RJ: L3 Soluções em tecnologia ltda. ISBN 978-65-5941-128-3